28/03/2013

Uma jovem estudante de 53 anos

Evoluir sempre, desistir, jamais!
Desânimo é uma palavra que não cabe no dicionário de Rosângela Maria Antônia de Souza. Sua serenidade, a sabedoria e jovialidade ao lidar com os desafios diários são percebidas logo nos primeiros instantes de conversa, características essas reveladas por sua fala mansa, um sorriso calmo e um discreto brilho de esperança no olhar, qualidades que são confirmadas por seus colegas, amigos e professores.
Hoje, com 53 anos de idade, acumula uma rotina diária invejável, mesmo para os jovens mais ativos, repartindo seu tempo de dona de casa com as funções de estagiária em setor público, esposa, mãe, avó, aluna em três cursos regulares e voluntária social.

Sétima a nascer de uma família de 11 filhos, Rosângela conseguiu concluir apenas o Ensino Fundamental, deixando os estudos ainda jovem para trabalhar como empregada doméstica no afã de contribuir com o orçamento doméstico de numerosa família. "Dediquei-me à escola o quanto pude, mas a necessidade financeira interrompeu toda possibilidade de continuar estudando", lembra.

Logo depois, os compromissos do novo lar. O casamento com o companheiro de mais de três décadas - Luiz, os três filhos, Tatiane (32), Luiz (27) e Natália (22), os quatro netos Bruno, Beatriz, Kelly e Pierre, e sempre a necessidade de se desdobrar entre a família, os afazeres domésticos e os múltiplos empregos. "O meu sonho de voltar à escola ficava cada vez mais distante", lamenta.

Com os filhos crescidos e mais autônomos, Rosângela vislumbrou a oportunidade de atuar no serviço público, no hoje extinto Projeto Municipal Cidade Verde, onde teria rendimentos mais regulares e maior equilíbrio na jornada de trabalho. "Tive a experiência de me tornar monitora da Escola Municipal de Educação Infantil Nona Catharina, onde vivi um tempo maravilhoso junto dos colegas e das crianças", lembra com carinho.

As oportunidades surgem

Certa de que as oportunidades não "caem do céu", aproveitou-se da mudança do Projeto Cidade Verdade para o Programa de Capacitação Técnica para o Trabalho – Estágio Social (PCT), lançado oficialmente em 17 de outubro de 2011.  O novo programa, que nasceu da articulação estratégica do atual governo municipal para suprir deficiências estruturais de projeto anterior, revitalizando-o por completo, tem como uma de suas exigências que, para fazer jus à bolsa auxílio, o participante tem de estar regularmente matriculado na Escola. Essa política de romper com o assistencialismo estéril e estimular o autodesenvolvimento foi o trampolim para Rosângela. Matriculou-se de imediato no EJA - supletivo para jovens e adultos, tomando de dois a três ônibus por noite para estudar primeiramente na Escola Estadual Francisco Graziano e depois concluir a formação na Escola Estadual Ignácio Zurita Junior.

Concluído o EJA, Rosângela foi mais adiante. Matriculou-se no curso profissionalizante Técnico em Informática do Centro Tecnológico Paula Souza, que é ministrado na Aehda, em parceria com a Escola Técnica Alberto Feres. Apesar de as dificuldades por nunca ter operado computador, mantém-se firme, apoiada pelo marido, pelos filhos e pelos coordenadores do curso. "Com o curso técnico, consegui manter um estágio que veio a calhar, pois consigo até recolher os impostos de INSS visando uma aposentadoria no futuro", explica.

Ainda não satisfeita, Rosângela diz fazer questão de "correr atrás do prejuízo". Também se matriculou no curso de técnico em Serviços Públicos, que é ministrado na modalidade à distância pelo IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia). Neste, vai às aulas presenciais duas vezes por semana, pouco antes do início das aulas na Paula Souza - Aehda. "Aos poucos, minha intimidade com computador e internet vai aumentando. Estou conseguindo progredir no conhecimento", revela.

Durante dois dias da semana, ela também frequenta um curso livre de Informática Básica e Digitação, na Fundação Padre Euclides Nunes. "Busco complementar o aprendizado em todos os lugares. Não posso perder tempo", diz.

E como que querendo devolver aos outros todos os estímulos recebidos, tornou-se instrutora voluntária no programa Escola Aberta, onde ensina, aos sábados de manhã, artesanato para mulheres de famílias de baixa renda.

As oficinas de Desenvolvimento Humano e Técnico, ministradas por meio do convênio com a Prefeitura, foram fonte de estímulos na escolha dos novos caminhos, segundo a entrevistada. Para Adriana F. Pellegrino e Edson C. Baptista, ambos coordenadores pedagógicos da Aehda, Rosângela sempre foi uma aluna diferenciada pela disposição em aprender e modificar sua própria realidade. "Rosângela é desses alunos que sempre servem de referência para os demais, tamanha a força de vontade e senso de oportunidade", diz Adriana.

Perguntada sobre o que teria de dizer para os que enfrentam dificuldades parecidas em continuar estudando, ela finaliza o diálogo dizendo: "Os mais jovens têm de saber que qualquer tempo desperdiçado no presente fará muita falta no futuro, por isso, devem aproveitar enquanto têm oportunidade e pessoas dedicadas em ensinar. Aos mais velhos, eu diria que não desistam nunca. Tenham sempre força de vontade e fé que vão vencer os obstáculos. Tenham muito ânimo e garra".

Rosângela concedeu esta entrevista feliz, instantes após saber que foi convidada a participar de um novo processo seletivo de estágio para assumir a desafiadora função de recepcionista no Hospital Municipal da Zona Leste. Se depender de seu carisma e humildade ao tratar com as pessoas, a vaga já é dela.

By Mário Joanoni